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13 razões para falar de Thirteen Reasons Why


Por Astrid Da Ros

A série de TV norte-americana 13 Reasons Why, baseada no livro homônimo, de Jay Asher, e adaptado por Brian Yorkey para o Netflix está gerando grande polêmica e uma incrível audiência. Não é pra menos: ela incorpora em seu roteiro dois ingredientes poderosos; explosivos atrelado ao emocional humano: adolescência e suicídio. Não quero colocar mais lenha nessa fogueira, mas provocar algumas reflexões a respeito, não só do suicídio, mas sobre a adolescência. Fase que traz tantas mudanças internas e externas para quem as vive e consegue sobreviver a ela.

A primeira questão que levantarei é em relação ao grupo. Adolescentes andam em grupo. Isso os faz ficar mais confiantes, os deixa mais à vontade. Ficam misturados uns aos outros, pois nessa fase não sabem quem são realmente e manterem-se juntos impede que apareçam sós e desprotegidos. Só que, andar em grupo não significa que cuidem um do outro. Na verdade, cuidam muito pouco uns dos outros, pois já é difícil cuidar de si mesmo. Esse é um dos pontos que vemos claramente no seriado que explora com certa propriedade esse elemento humano pouco ou nada compreendido pela maioria das pessoas.

O segundo ponto que engloba o primeiro é que fazer bullyng normalmente envolve mais de uma pessoa. O grupo agride, ou um agride e os outros dão apoio moral e proteção ao agressor. Quem sofre normalmente está sozinho, ou acaba ficando sozinho. O tal do bullyng acontece desde sempre, principalmente nas escolas e afins. Só que antigamente o máximo do abuso era chamar o outro de “gordo baleia”, “quatro olho”, “Olívia palito”, alguns de “biscate”. Saiam algumas brigas, mas não eram tão pesadas. Mesmo assim, os tímidos, os inseguros sofriam muito por estarem mais vulneráveis a esses xingamentos. E quem nunca presenciou ou passou por algo assim que atire a primeira pedra!

Terceiro ponto é que nessa fase os adolescentes acabam não sendo mais aqueles filhos que contam tudo em casa. A tendência é o isolamento, o fechamento. Se está sofrendo qualquer coisa na escola ou outro local de reunião de jovens, eles se calam e sofrem sozinhos. Mal falam entre eles, ou falam pouco, mas sempre procuram parecer bem aos olhos de quem está por perto. No seriado o grupo de rapazes “maus”, vivem seus dramas particulares sem dizer muita coisa sobre isso uns aos outros, e aparecem rindo e mostrando um falso bem-estar para todos. Mas que são capazes das maiores atrocidades. É a arte imitando a vida!

No quarto, entram os pais. Os saudáveis e os não saudáveis. Já é difícil para pais saudáveis se darem conta do que ocorre com os filhos na adolescência, imagine para pais que possuem suas dificuldades e ficam rendidos nesse momento, se ausentando da vida deles de alguma maneira, afastando-se ou tiranizando. O seriado também se esmera em mostrar como para alguns pais os sinais que eram dados e que para quem está desse lado da telinha pareciam claros, passavam despercebidos. E é nessa fase de tantos questionamentos tão necessário que os pais se coloquem estabelecendo regras, limites, se aproximando, tendo paciência de ficar e esperar que eles digam algo. É somente no afeto que as relações acontecem e que eles acabam ficando um pouco mais confortáveis para se mostrar. Se não se sentirem importantes para os pais irão reagir a isso com comportamentos antissociais e contra si mesmos. E essa é uma questão que me parece fundamental a ser observada nessa fase da vida.

Um quinto fator relacionado é que na adolescência vão se reeditar aspectos da primeira infância. Uma criança que teve uma mãe suficientemente boa, um pai presente e representante da lei, e uma boa dose de investimento afetivo, provavelmente ganha uma estrutura psíquica que a faz num primeiro momento, ter uma ligação forte com a vida e, num segundo ter condições de passar sem grandes traumas pelo liquidificador da adolescência.

Sexto, caso aja na primeira infância dificuldades extremas ou alguma ruptura sem resgate, teremos na adolescência, caso o ambiente exija uma estrutura que não se compôs minimamente, problemas. E é bom se preparar pois serão iminentes.

No sétimo podemos pontuar o fator suicídio, tema da série que de forma direta nos colocou cara a cara com uma problemática pouco exposta no social. Segundo um levantamento da BBC Brasil, entre 1980 e 2014, a taxa de suicídio entre jovens de 15 a 29 anos aumentou 27,2% no Brasil e no mundo não é diferente: em nível mundial, mais de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano, número que representa uma morte a cada 40 segundos, segundo o relatório sobre prevenção ao suicídio da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado em 2015. O fato é que não podemos mais deixar de falar sobre isso abertamente. É preciso vencer os tabus. De maneira séria e responsável, principalmente nós, profissionais de saúde devemos abrir espaço para discutir a questão.

Em oitavo lugar procurar culpados é complicado. No seriado, as gravações vão dando um tom de que cada um que é envolvido na trama tem uma ponta de responsabilidade pelo suicídio da personagem Hannah. Penso que um jovem que não esteja bem alicerçado, fica nesse momento da vida muito mais vulnerável quando tem que lidar com conflitos, seja dentro da família, na escola e nos meios sociais de modo geral. A questão é: até que ponto uma pessoa é responsável pelos atos de outra? Será que quando um casal rompe um namoro e um deles ameaça se suicidar, realmente o outro torna-se responsável se a ameaça se cumprir?

Um nono aspecto é alertar pais, professores, educadores, profissionais que estão ligados diretamente aos jovens, de que filmes, séries, que tratam de depressão, suicídio, etc, podem trazer complicações para pessoas que estão fragilizadas. Lembro-me de ter comentado com um conhecido a respeito do filme “Uma Mente Brilhante”, e para meu espanto, na época, essa pessoa falou que ficou muito mal ao assisti-lo. Mal a ponto de perder o sono a noite. Que os conteúdos tratados ali mobilizaram sentimentos que estavam muito bem protegidos. Assim, é necessária atenção. Sempre oriento meus pacientes com depressão a não assistirem programas com temáticas pesadas, a se afastarem de conversas com conteúdo negativos, de pessoas que só falam de doenças. Pessoas com depressão precisam ser cuidados e respeitados.

Em décimo lugar temos receio de falar sobre morte e suicídio. Acredito que todos aqueles que lidam com pessoas, principalmente na área da saúde, não podem se eximir do tema. Muitas vezes, de forma direta. Perguntar para um jovem, que dá sinais que a coisa vai mal, se ele em algum momento pensou que a vida não vale a pena, é abrir espaço para que ele possa receber ajuda. Vale o alerta: quem sente um vazio profundo e uma falta de sentido para tudo está em perigo.

Décimo Primeiro é o lugar de pensar que a qualidade da saúde mental dos nossos jovens envolve pensar na sua vida escolar e na na pressão que estão sofrendo para terem alta performance. Como se boa nota fosse sinônimo de aprendizagem, e que estudo garantisse uma boa vida profissional. A vida é muito mais que isso. Vejo nosso sistema educacional como ultrapassado, nossas crianças e adolescentes estão dando sinais disso, e pouco se faz para mudar essa realidade. Com tantas mudanças e evoluções, o ensino é do mesmo jeito, de forma geral, há mais de 50 anos com uma agravante: a indústria da educação focou em resultados de vestibulares e enens para credenciar o jovem como aptos ao mercado. Isso propicia uma geração que cresce com a preocupação de ser competitiva o tempo todo e em todo aspecto de suas vidas.

Décimo segundo é que, em se falando de sinais, faz-se muito importante que desde o começo da vida humana se ensine os pequenos a identificar suas emoções. Isso pode facilitar muito, pois saber desde cedo a identificar o que é tristeza, raiva, ódio, amor, decepção, alegria, impede que tudo vire angústia, e facilita lidar com seus sentimentos.

Em último, minha décima terceira provocação, acredito que é imprescindível cuidar da saúde mental quando os indícios aparecem, logo que forem detectados. Muitas vezes a ajuda externa se faz necessária. Procurar um psicólogo não é coisa de louco, ao contrário! É tão normal e plausível como alguém com dor de dentes procura um dentista. As pessoas, de modo geral, tem é muito medo da loucura, como se ela fosse algo muito estranho a todos nós. E não é! Afinal, é uma pretensão achar que somos todos sãos. Atribuída a Caetano Veloso, a fala “de perto ninguém é normal” resume bem o que digo. E pedir ajuda é um ato de coragem, é admitir que somos humanos e impotentes. É poder olhar para a realidade. Pois, a insanidade reside em não a reconhecer.

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Astrid Da Ros é psicóloga clínica formada pela PUC Campinas. Tem formação em psicoterapia breve pelo Sedes Sapientae, é especialista em terapia de casal pelo Instituto CEFAS. Tem ainda formação em psicanálise freudiana – Grupos de Estudos Especializados; formação em psicanálise winniccottiana pelo Centro Winnicott de São Paulo. É membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana

 



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