28
set
agressiva

Quem tudo quer…


por Astrir Da Rós

Não é nada fácil ter que lidar com as frustrações. Ainda mais se você nunca foi treinado ou educado para ter que suportá-las. Isso mesmo, tem muita gente que sofre demais quando quer algo e pode não ter, quando precisa fazer escolhas. Pois é, são pessoas, muitas vezes, capazes de tomar atitudes condenáveis como passar rasteira nos outros, prejudicar pessoas queridas, mentirem, manipularem, para obterem o que desejam.

Não foram acostumadas a NÃO ter o que querem.

E isso é consequência da educação que tiveram. Muitos pais não conseguem dizer o famoso “não” aos seus filhos. Eles se sentem ameaçados em perder o seu amor, ou não se colocam porque isso poderá criar um momento de estresse tamanho com choradeira, gritaria, insistência interminável, que eles, os pais, não suportam ou não tem tempo para administrar. Muitos são os motivos que levam pais a não cuidarem de situações onde precisam colocar regras e apresentar a realidade aos seus filhos.

Mas, a coisa começa a ficar séria quando uma criança criada num ambiente como esse vai para o social: escola, clubes, casa de parentes e conhecidos. A realidade é dura e não vai favorecer o “mimadinho”. Aí, todo onipotente, negando que existe algo mais forte que ele, vai tentar fazer tudo que quer. E vai tentar obter o que deseja a qualquer preço. Normalmente o que é desencadeado aqui, quando encontra obstáculos, é uma série de comportamentos antissociais. E sai de baixo, pois a destruição pode ser avassaladora, pela revolta de não ser atendido e pela necessidade que alguém o contenha. Criança pede limites se rebelando e testando.

Nesse caso, foi formado um sujeito egoísta e nada tolerante. Não enxerga o outro, nem o ambiente real que vive. E no momento de fazer escolhas será sempre um grande problema. Quer a blusa azul ou vermelha? Ele dirá sempre: -”As duas”.

Podemos pensar que a maioria das pessoas recebe uma educação “normal”, aceitando as regras, mas o contexto externo em que vivem faz uma apologia a conquista de bens materiais, de aquisição de prazer como meta principal, só querendo o “bem-bom” sem muito sacrifício, que quando precisam escolher não conseguem. Até porque toda escolha envolve uma perda, envolve deixar de lado outras possibilidades.

Não conseguir escolher pode trazer perdas maiores posteriormente. Naquela hora, diante da tentação daquele prazer imediato, não se consegue optar, se quer tudo. Às vezes, quer uma coisa mais que a outra, mas vem aquele pensamento: “Para que eu preciso escolher uma se posso ter as duas?” Acontece que se você é glutão uma hora você vai ficar gordo. Quer dizer que naquele momento tudo parece estar tranquilo, mas a conta vem depois.

Quantos relacionamentos monogâmicos (sim porque isso é um acordo entre as partes) acabam, pelo fato de um deles não abrir mão de uma aventura, rompendo o combinado.  Quantos objetos são perdidos, pois não se conseguiu escolher e …. passou, lá se foram os objetos de desejo pelos ares e acaba-se ficando sem nenhum. Ou fica-se com os dois, com todos e a conta no banco faz “bum”!

É, a conta bancária! Nunca sair do especial, perder cartão de crédito, fazer empréstimos para cobrir outro empréstimo tentando fugir dos juros altos, também pode refletir um descontrole e uma falta de limites. Claro, que em tempos de crise financeira podemos até ter uma justificativa, mas estamos falando de excessos, da impossibilidade emocional de poder conter-se.

Para nossa alegria ou dor, tudo tem limite.

Vejam quantos jovens morrem por excesso de tudo, inclusive excesso de poder. Parece que levam esse lema na cabeça: No limite do que eu não posso eu passo rapidinho da coragem para a loucura, sem nenhum sentido de realidade.

Se bem que na adolescência é natural que exista um tanto de onipotência, e que os pais nesse período precisem apenas rezar para pedir proteção para seu filho.

Nosso corpo também tem um limite. Temos a pele que nos dá um contorno e se cometemos excessos, podemos não explodir por fora, como a D. Redonda, personagem de Dias Gomes em Saramandaia, mas explodimos por dentro. Com os exageros e falta de controle podemos ter uma cirrose hepática, uma obesidade mórbida, diabetes, pressão alta e uma lista de consequências por fazer mais do que o nosso pequeno ser aguenta.

E ainda temos o limite do tempo. Ah, esse tempo que nos persegue e nos alcança. E que sem ele não seríamos coisa alguma. Pois, se tivéssemos todo tempo do mundo, poderíamos ser tudo, e ser tudo é nada. Pois é no tempo-limite da vida que podemos realmente vir a ser.

Como disse Alberto Caeiro: “ O que não tem limite não existe”

Astrid 1 (1)

Astrid Da Ros é psicóloga clínica formada pela PUC Campinas. Tem formação em psicoterapia breve pelo Sedes Sapientae, é especialista em terapia de casal pelo Instituto CEFAS. Tem ainda formação em psicanálise freudiana – Grupos de Estudos Especializados; formação em psicanálise winniccottiana pelo Centro Winnicott de São Paulo. É membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana



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